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Casa da gente: vivendo num pedacinho do Rio Antigo

Casa da gente: vivendo num pedacinho do Rio Antigo

RIO - Dono de uma loja de móveis na Lapa, era no segundo andar do sobrado que abriga a casa na Rua do Lavradio que o arquiteto Luciano Cavalcanti de Albuquerque morava. Mas, quando o número de bares e restaurantes da via começou a crescer, ele decidiu que era hora de procurar um pouso mais tranquilo para os momentos de descanso. Conquistar o lugar dos sonhos, contudo, não foi fácil. Cavalcanti ficou um ano na fila de espera para conseguir alugar o apartamento que queria.

Pudera! O lugar é mesmo para poucos. Atrás do Outeiro da Glória, a rua com calçamento de paralelepípedo esconde um prédio da década de 1930 que segue as características da arquitetura colonial que marcam a Igreja. É que a edificação pertence à Irmandade de Nossa Senhora do Outeiro, administradora da Igreja, e abriga além do Museu e da biblioteca da entidade, oito apartamentos que são alugados a felizardos como Cavalcanti que podem, assim, manter um pé no charme do Rio de outros tempos, enquanto chegam, com poucos passos, à cidade contemporânea e, por vezes caótica, de hoje. De brinde, ele ainda tem janelas que se abrem para uma vista única: a bela Baía de Guanabara ao fundo e, em primeiro plano, as costas da igreja concluída em 1739 que, de hora em hora, também dá a trilha sonora: o badalar de seus sinos seculares.

— O Rio é cheio dessas surpresas. De repente, você se depara com um recanto incrível. Tenho uma amiga que quando vem aqui diz que chegou à Lisboa — diverte-se o arquiteto, que não escolheu morar no Rio de outrora à toa.

De família tradicional, que frequentava a nobreza dos tempos imperiais — sua tetravó, a condessa de Belmonte, foi tutora de Dom Pedro II —, Cavalcanti é um verdadeiro guardião da história da cidade. Por 30 anos, trabalhou no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), faz a conservação dos Museus Castro Maia, curadoria de inúmeras exposições de arte e, em seu Ateliê Belmonte, recupera e vende mobiliário antigo, indo na contramão do mercado de decoração atual. Enquanto a maioria, dá cores fortes e ares contemporâneos a essas peças, ele prefere descascar as camadas de tinta para descobrir, e expor, a cor natural da madeira e seus veios.

— São madeiras muito nobres, que já não estão mais disponíveis. É uma pena escondê-las.

Essa paixão, aliás, fica clara na decoração de seu apartamento. Boa parte do mobiliário foi herdada de família ou comprada em viagens. De madeira, algumas têm um design mais clássico, como a mesa de jantar trazida da casa da mãe, a escrivaninha que fica em seu quarto e pertenceu a seu avô, o bufê do jantar, a cômoda do quarto. Mas, há ali uma mistura de estilos que só mesmo um apaixonado pela história da arquitetura poderia promover. O bar, num cantinho da sala, fica num móvel art déco, e na sala de estar, é um sofá modernista de Florence Knoll que recebe os convidados.

— Gosto dessa mistura do contemporâneo com o antigo. Acho que traz conforto — justifica Cavalcanti, que seguiu o estilo na escolha das obras de arte.

Pelas paredes, peças que estão na família desde o século XIX, se misturam a gravuras de Debret, obras de Carlos Scliar, Eduardo Suede e Claudio Faciolli. E, numa delas, um mosaico formado por obras, também de momentos distintos, dedicadas apenas ao Rio, claro.

— Tem Marcelo Frazão, Guilherme Secchin, um estudo para azulejos de Teresa Miranda. Acho que o Rio, se não tivesse passado por tantos bota-abaixos e conservado mais aquela arquitetura eclética do início do século XX, que Paris tem até hoje, seria a cidade mais bonita do mundo. Hoje é apenas uma das mais bonitas. Perdemos a chance de ser uma espécie de Paris à beira-mar — avalia o arquiteto.

https://oglobo.globo.com/economia/imoveis/casa-da-gente-vivendo-num-pedacinho-do-rio-antigo-11878356

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